ENTRE O PRAZER E O SIGNIFICADO

sábado, novembro 29

O elefante acorrentado

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'Quando eu era pequeno, adorava o circo e aquilo de que gostava eram os animais.
Cativava-me especialmente o elefante que, como vim a saber mais tarde, era também o animal preferido dos outros miúdos. Durante o espectáculo, a enorme criatura dava mostras de ter um peso, tamanho e força descomunais…
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Mas, depois da sua actuação e pouco antes de voltar para os bastidores o elefante ficava sempre atado a uma pequena estaca cravada no solo, com uma corrente a agrilhoar-lhe uma das suas patas. No entanto, a estaca não passava de um minúsculo pedaço de madeira enterrado uns centímetros no solo. E, embora a torrente fosse grossa e pesada, parecia-me óbvio que um animal capaz de arrancar uma arvore pela raiz, com toda a sua força, facilmente se conseguiria libertar da estaca e fugir. O mistério continua a parecer-me evidente. O que é que o prende, então? Porque é que não foge?
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Quando eu tinha cinco ou seis anos, ainda acreditava na sabedoria dos mais velhos. Um dia, decidi questionar um professor, um padre e um tio sobre o mistério do elefante. Um deles explicou-me que o elefante não fugia porque era amestrado. Fiz, então, a pergunta óbvia:
-Se é amestrado, porque é que o acorrentam?
Não me lembro de ter recebido uma resposta coerente.
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Com o passar do tempo, esqueci o mistério do elefante e da estaca e só o recordava quando me cruzava com outras pessoas que também já tinham feito essa pergunta. Há uns anos, descobri que, felizmente para mim, alguém fora tão inteligente e sábio que encontrara a resposta: O elefante do circo não foge porque esteve atado a uma estaca desde que era muito, muito pequeno.
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Fechei os olhos e imaginei o indefeso elefante recém-nascido preso à estaca. Tenho a certeza de que naquela altura o elefantezinho puxou, esperneou e suou para se tentar libertar. E, apesar dos seus esforços, não conseguiu, porque aquela estaca era demasiado forte para ele. Imaginei-o a adormecer, cansado, e a tentar novamente no dia seguinte, e no outro, e no outro...
Até que, um dia, um dia terrível para a sua história, o animal aceitou a sua impotência e resignou-se com o seu destino.
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Esse elefante enorme e poderoso, que vemos no circo, não foge porque, coitado, pensa que não é capaz de o fazer. Tem gravada na memória a impotência que sentiu pouco depois de nascer. E o pior é que nunca mais tornou a questionar seriamente essa recordação.
Jamais, jamais tentou pôr novamente à prova a sua força...

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O Elefante Acorrentado, Jorge Bucay, Editora Arte Plural
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4 comentários:

Anónimo disse...

Devia fazer parte das escolas a disciplina das metáforas ou alegorias, ou associações ou pensamento analógico ou anacrónico ... belissima estória e muito refrescante, abraço do palhaço jorge pacheco

Palhaço Voador disse...

Grande abraço, amigo palhaço :o)

Ivo Gabriel disse...

Este teu espaço é sempre acolhedor. Bonita história para parar e pensar um pouco. Sobressalta-nos! A verdade é o que elefante pode soltar-se da estaca e andar livremente. Mais difícil é fugir do sentimento de impotência. As correntes e estacas estão sempre dentro de nós. Na memória dele… e na nossa!

Espero que estejas bem amigo. Quando te vejo pelo msn?
Abraço sentido da terra do gelo e do fogo.

Palhaço Voador disse...

Devido ao trabalho e às viagens, tenho andado afastado das comunicações digitais, mas, sempre que se fala da Islândia, pergunto-me como estará o meu amigo. Um forte abraço para ti!

‘Ever tried. Ever failed. No matter. Try Again. Fail again. Fail better.’

‘Ever tried. Ever failed. No matter. Try Again. Fail again. Fail better.’