ENTRE O PRAZER E O SIGNIFICADO

quarta-feira, julho 1

A Poética de um Clown 34

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'Cada criatura que passava arrastava consigo uma cauda - poalha luminosa de oiro ou cinza, feita de luar ou de escarlate. Lentamente pôde distingui-los, classificá-los, conforme o manto régio ou pobre que traziam. E na noite havia-os que deixavam um grande rasto rútilo, como estrelas cadentes, onde gemiam ais de mágoa, prolongados como um som de viola que se parte. Míseros, ressequidos e sacudidos pela dor, traziam uma cauda cor-de-cinza, com chuveiros de miríades de centelhas de lágrimas, e a poetas nimbava-os uma poalha de luar e de oiro. Velhas ardidas eram envolvidas por uma atmosfera baça, onde o imortal amor ainda luzia. E alguns deixavam atrás de si restos de mantos todos púrpuras, que se iam perder na lama e no esquecimento; outros, criminosos decerto, caminhavam numa nuvem negra, onde pedaços sangrentos escorriam como punhaladas, e havia-os todos verdes, de cambiantes infinitos. Muitos arrastavam caudas enormes pela lama, despedaçavam-nas de encontro às esquinas, e alguns procuravam deitá-las fora para não mais pensarem num passado tenebroso.
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- O homem material - pensava o Palhaço - não existe. A vida é uma convenção. O que existe é sonho, o sonho é a única realidade. Sonhar! Sonhar!...'
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Raul Brandão. Fotograma de Freaks. Tod Browning
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1 comentário:

Vanessa disse...

:)

(de nada. *)

‘Ever tried. Ever failed. No matter. Try Again. Fail again. Fail better.’

‘Ever tried. Ever failed. No matter. Try Again. Fail again. Fail better.’