ENTRE O PRAZER E O SIGNIFICADO

quarta-feira, março 28

Da Importância de Saber Viver Sozinho


'Não é apenas o avanço tecnológico que marcou o início deste milénio. As relações afectivas também estão a passar por profundas transformações e a revolucionar o conceito de amor. O que se procura hoje é uma relação compatível com os tempos modernos, na qual exista individualidade, respeito, alegria e prazer em estar junto, e não mais uma relação de dependência, em que um responsabiliza o outro pelo seu bem-estar.

A ideia de uma pessoa ser o remédio para nossa felicidade, que nasceu com o romantismo está fadada a desaparecer neste início de século. O amor romântico parte da premissa de que somos uma fração e de que precisamos de encontrar a nossa outra metade para nos sentirmos completos. Muitas vezes ocorre até um processo de despersonalização que, historicamente, tem atingido mais a mulher, levando-a a abandonar as suas características, para se adaptar ao projecto masculino.

A teoria da ligação entre os opostos também vem dessa raiz: o outro tem de fazer o que eu não sei. Se sou tímido, ele deve ser agressivo, e assim por diante. Uma ideia prática de sobrevivência, e pouco romântica, por sinal. A palavra de ordem deste século é parceria.
Estamos a trocar o amor de necessidade, pelo amor de desejo. Eu gosto e desejo a companhia, mas não preciso, o que é muito diferente.

Com o avanço tecnológico, que exige mais tempo individual, as pessoas estão a perder o pavor de ficar sozinhas, e a aprender a conviver melhor consigo mesmas. Estão a começar a perceber que se sentem fração, mas são inteiras. O outro, com o qual se estabelece um elo, também se sente uma fração. Não é o príncipe ou o salvador de coisa nenhuma. É apenas um companheiro de viagem.

O homem é um animal que vai mudando o mundo, e depois tem que se ir reciclando, para se adaptar ao mundo que fabricou. Estamos a entrar na era da individualidade, o que não tem nada a ver com egoísmo. O egoísta não tem energia própria; ele alimenta-se da energia que vem do outro, seja ela financeira ou moral.

A nova forma de amor, ou de mais amor, tem uma nova cara e significado. Visa a aproximação de dois inteiros, e não a união de duas metades. E ela só é possível para aqueles que conseguirem trabalhar a sua individualidade. Quanto mais o indivíduo for competente para viver sozinho, mais preparado estará para uma boa relação afectiva.

A solidão é boa, ficar sozinho não é vergonhoso. Pelo contrário, dá dignidade à pessoa.
As boas relações afectivas são óptimas, são muito parecidas com o ficar sozinho, ninguém exige nada de ninguém e ambos crescem. Relações de dominação e de concessões exageradas são coisas do século passado. Cada cérebro é único. O nosso modo de pensar e agir não serve de referência para avaliar ninguém. Muitas vezes, pensamos que o outro é a nossa alma gêmea e, na verdade, o que fizemos foi inventá-lo ao nosso gosto.

Todas as pessoas deveriam ficar sozinhas de vez em quando, para estabelecer um diálogo interno e descobrir a sua força pessoal. Na solidão, o indivíduo entende que a harmonia e a paz de espírito só podem ser encontradas dentro dele mesmo, e não a partir do outro.

Ao perceber isso, ele torna-se menos crítico e mais compreensivo quanto às diferenças, respeitando a maneira de ser de cada um. O amor de duas pessoas inteiras é muito mais saudável.'


Adaptado de um texto de Flávio Gikovate

7 comentários:

parole disse...

Muito interessante este texto. Obrigada.

ana disse...

eu brindo ao amor de duas pessoas inteiras
chin, chin

Psinocas disse...

...é das poucas coisas em que sou pessimista...o que é isso de duas pessoas inteiras? seria desejável, mas receio bem não ser viável!

A este propósito, aconselho vivamente, Paixão, Amor e Sexo de Francisco Allen Gomes.

É curioso notar-se que etimologicamente, a palavra Paixão e Doença, derivam da mesma raiz Pathos!

folha de rosto disse...

a aquisição desta faculdadé é sinónimo de saúde mental.
porque a patologia mental é a patologia da relação.

gostei, voador :)

Cometa 2000 disse...

Antes de mais, obrigado pelo texto. Identifico-me e gostei muito dele.

No início rejeitei a frase "A palavra de ordem deste século é parceria".
Isto porque, a palavra parceria está bastante gasta e associada ao mundo empresarial, em que a maior partes das vezes os interesses de uns se sobrepoem aos dos outros. Fui ao dicionário da PE e li o seu significado: "reunião de indivíduos para a exploração de interesses em comum". E lembrei-me do que alguém já disse: "amar não é ficar a olhar um para o outro mas olharem juntos na mesma direcção" (com as devidas e construtivas nuances, claro!). Ok, fez-me sentido.

Avancei e fiquei apenas um bocado baralhado com a ideia de excluirmos a necessidade... Ou seja, entendo que as relações crescem mais partindo mais do desejo do que da necessidade mas, apagá-la totalmente faz-me confusão. A verdade é que também somos seres inacabados, em falta, incompletos, carentes e dependentes uns dos outros. E, é também isso que nos aproxima e faz sermos mais tolerantes. Não?

Bom, desculpa o comentário longo mas foi o que o teu texto provocou. :-)

Até.

Daniel disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Daniel disse...

Existe porém, um aspecto não comentado, no seu texto.

Antigamente certamente, a mulher cedia, e a vida dela acabava se modificando, e ela assim ficava obrigada à seu responsavel. Além de obviamente muitas outras qualidades negativas.

Mas é importante frizar os conceitos errados na teoria dos dois indivíduos completos. Quanto mais completos, menos necessitados. No fundo as grandes falhas, seriam a promiscuidade, e a falta de sentimentalismo, que a falta de auto-perfeição, causa.

Nunca se consegue algo, sem direta ou indiretamente se perder outra coisa. Assim como uma lógica nunca é lei, ela é mutavel, as evoluções sempre cobram seu preço. Estamos fadados a descobrir todas.

Nem todos desejam, uma vida em que se consegue, dispensar um outro ser mecânicamente, por falta de melhor programação pessoal...

Grato.
Nyarlathotep.

‘Ever tried. Ever failed. No matter. Try Again. Fail again. Fail better.’

‘Ever tried. Ever failed. No matter. Try Again. Fail again. Fail better.’