ENTRE O PRAZER E O SIGNIFICADO

quinta-feira, setembro 6

Homo Faber 10

Steve Chong


‘Diante de mim está um espelho. Ele vira-me do avesso: coloca-me a direita à esquerda e a esquerda à direita. E aqui começa a ambiguidade com que sempre me relacionei com este objecto. Se olho para ele, ele fixa-me, mas logo se torna inútil se desvio o olhar (...). Definitivamente, o que nós vemos no espelho é sempre o faz-de-conta. Olho para o cabelo para fugir desta sina. Sim, é para isso que os espelhos são úteis: para alisar o cabelo de modo a que não nos apanhem com o ar de monstros que a cabeça, na sua luta nocturna, contra os travesseiros engendrou. Também, assim tanto, não! Talvez o meu interior seja um pouco mais agradável do que aquele que o meu rosto mostra ao espelho pela manhã. Mas como posso eu saber?
Ah, já sei, escrevo poesia, faço um diário. Aí, sou um herói romântico, épico, como queiram, um sofredor à espera de compaixão, um desatinado encantador, um observador inteligente, amigo dos outros como ninguém. Cosmética. Enrolar-me em palavras não é mais do que aplicar rouge, creme, estudar o efeito da gola, escolher as cores que nesse dia me vão representar. Também posso falar, se é que encontro alguém disposto a ouvir-me. (...)

O que sou, então? Não me resta senão procurar a resposta nos olhos dos outros. Vou à procura de olhares e, por isso, gosto de andar no anonimato do metropolitano, frente a frente com os olhares desconhecidos: olhares baços, alguns, outros curiosos, uns poucos em desafio, outros tímidos, suplicantes, sonhadores. Nada me dá maior gosto do que o jogo dos olhares. Olhares que me procuram traiçoeiramente para logo me fugirem quando os enfrento, com lances de bate e foge, um sorriso fugidio, uma desatenção fingida, um desprezo ocasional, uma súplica inconsequente de intimidade, um genuíno evitamento, tal como eu faço com eles. São esses os verdadeiros espelhos onde nos refazemos através dos outros.

Também procuro olhares em espaços públicos convencionais. Aí, são olhares conhecidos que se prolongam em cumprimentos. Mas esses são mais parecidos com o meu espelho da parede: o sorriso forçado, o olhar condescendente, o gesto formal, o reflexo de um conhecimento factual por ambos conhecido e aceite. Nada de novo me trazem. Sempre me trazem o passado, poucas vezes o presente. Quanto ao futuro nada me dizem, a não ser que eu devo continuar a ser, para eles, o que era dantes: apenas um prolongamento do passado.

Não me dou bem com a ideia de ser um prolongamento do passado. Ele é um trilho que me empurra para a frente, mas não sei para onde. Apenas naquela direcção. Gostaria, sim, de ver uma meta, mas não creio que seja o passado a dar-ma. É verdade que já tive muitas metas. Muitas se revelaram enganos, outras ficaram ultrapassadas. Agora estou sem sentido, apenas os olhares conhecidos a empurrarem-me para a frente. Não gosto disso, quero ser eu próprio a inventar os meus caminhos.
Por isso, amanhã, vou para um lugar onde ninguém me conheça.
Vou renascer no primeiro olhar que encontre.’


J.L. Pio Abreu, Quem nos faz como somos, Dom Quixote

‘Ever tried. Ever failed. No matter. Try Again. Fail again. Fail better.’

‘Ever tried. Ever failed. No matter. Try Again. Fail again. Fail better.’